Exposições individuais

EXPOSIções individuais

FAZENDO GENTE

“Quase ninguém mais faz gente”, observa Newton Mesquita. Não no sentido bíblico, mas no sentido pictórico. Ele faz. Nesta exposição são 52 quadros mostrando “gentes”. Homens vestidos e mulheres nuas. Figuras inteiras, grandes, com cores fortes.

Muitos personagens aparecem de costas, andando ao acaso, de mão no bolso, passando uma expressão contemplativa, mesmo que não se vejam os rostos. Alguns elementos sugerem retratos de um tempo antigo. Homens de chapéu, guarda-chuva. Um leva um trombone de vara, um musico segura uma tuba. Dois pensam em fazer música. No que pensam os outros? Por que o artista dá a todos esse ar de perdidos em pensamentos?

As mulheres estão sempre nuas. Comparadas com a placidez poética dos homens andando ao léu, as mulheres são um choque de cor e de sensualidade. O erotismo aparece convidativo, ao alcance da vontade mais próxima. O artista quis assim. Deu às figuras tons realistas.

Tons realistas. A obra de Newton Mesquita é realista, mas não hiper. Ele não gosta do rótulo, nem de rótulos. Não precisa. Não são necessários. Basta passear pelos quadros e absorver essa dimensão de intimidade, de participação, dada pelo desenho preciso e pela atmosfera insinuada.

Estas características marcam os trabalhos de Newton Mesquita. Cenas do cotidiano reinterpretadas pelo olhar delicado do artista. Que desta vez dedicou uma exposição inteira a fazer gente, “gentes”, como você, eu ou ela. Mas que, retratados assim, ganhamos a dimensão de arte.

Thomaz Souto Corrêa
Abril de 2012

Na clara tarde
um banco na praça.

Os tons dourados envolviam a cidade como um manto. Cobre abandonado ao relento. Uma face desconhecida do nosso sol. Tudo estava imóvel e o nosso horizonte era unicamente o que os nossos olhos abarcavam, esta onírica cidade feita de ouros. Esperávamos por ela há tanto tempo, por esta cidade tão real a ponto de ser sonhada.

Alguns de nós, talvez, ainda estejamos imersos na cidade vermelha, na cidade amarela, no trecho azulado de uma rua, nas imagens simples da pequena vida, uma banca de jornal, um comerciante que fecha a loja, um homem que olha as revistas, um banco de praça. Ou no interior de uma casa onde alguém terá organizado uma mesa de canto e um vaso de flores.

Luzes douradas, azuis, vermelhas, cálidas flores no vaso, o entardecer do lojista. Vestígios.

Há vários anos eu fui Curador de uma grande mostra sobre o tema da reciclagem, no Jardim Botânico, Rio de Janeiro. O trabalho mais despojado era do artista Newton Mesquita: um tradicional banco de praça de madeira e algumas garrafas vazias ao seu pé. Por lá teriam passados pessoas, muitas teriam bebido e sentido os rompimentos, as perdas, o que poderia ter sido e não foi. Se juntas, teriam conversado e, quem sabe? uma delas teria dito, “…eu não sou isto, já tive uma situação…”. Não sabemos, mas sentíamos que por ali passaram homens com uma história na alma.

Esta brilhante exposição do pintor Newton Mesquita me evoca uma cena imaginária e que, para mim, o identifica. Há uma praça e nesta praça um banco tradicional de madeira. E neste banco está sentado um homem alto e magro, os braços sobre o encosto. Ele está quieto e olha. A cada momento o sol desenha uma cidade diferente e as pessoas percorrem o seu circuito. Lá está este homem magro e quieto, e o seu desenho também é cambiante conforme as horas do dia. Ele somente olha. É a testemunha.

A pintura de Newton Mesquita é de uma objetividade notável. Ela é substantiva, qualidade que encontramos em toda pintura de alta linhagem. O artista cria uma realidade e ela se apresenta diante de nós, já desligada e independente da origem. É um ser espiritual e podemos dialogar com ela.

Certamente verificamos constantes temáticas, um método de ver e fazer, uma certa atmosfera, alguns sentimentos recorrentes. E desta maneira sabemos que estes trabalhos foram feitos por um artista chamado Newton Mesquita. Em que outra pintura encontraríamos, juntos, este marcado sentimento de solidão e esta doce solidariedade ?

Jacob Klintowitz